segunda-feira, 18 de junho de 2012

O Cantar do Galo

"Porquanto qualquer que a si mesmo se exaltar será humilhado, e aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado." (Lucas 14.11)





Era uma vez um galo que acordava bem cedo todas as manhãs e dizia para a bicharada do galinheiro:

Vou cantar para fazer o sol nascer…

Ato contínuo subia até o alto do telhado, estufava o peito, olhava para o nascente e cantava seu belo canto!

E ficava esperando.

Dali a pouco a bola vermelha começava a aparecer, até que se mostrava toda, acima das montanhas, iluminando tudo.

O galo se voltava, orgulhoso, para os bichos e dizia:

Eu não falei?

E todos ficavam boquiabertos e respeitosos ante o poder tão extraordinário conferido ao galo: cantar para fazer o sol nascer.

Ninguém duvidava. Tinha sido sempre assim.

Havia grande ansiedade entre os moradores do galinheiro. 
E se o galo ficasse rouco? 
E se esquecesse da partitura? 
Quem cantaria para fazer o sol nascer? 
O dia não amanheceria? 
E por causa disso cuidavam do galo com o maior cuidado. 
Ele, sabendo disso, sempre ameaçava a bicharada, para ser mais bem tratado.

Olha que eu enrouqueço! – dizia.

E todos se punham a correr, para satisfazer as suas vontades.

O galo, por sua vez, tinha enormes oscilações emocionais. 
Pela manhã, depois de o sol nascer, sentia-se como um deus, onipotente e admirado e não era para menos. 
Mas à noite vinham a depressão e a ansiedade.

Não posso perder a hora, dizia. Se eu não cantar, o sol não vai nascer. E não conseguia dormir um sono tranquilo.

Isto, na verdade, acontece com todas as pessoas que se acham poderosas assim. Paira sempre sobre elas a ameaça de fim do mundo.

Aconteceu, como era inevitável, que certa madrugada o galo perdeu a hora. 
Não cantou para fazer o sol nascer. 
E o sol nasceu sem o seu canto. 
O galo acordou com o rebuliço no galinheiro. 
Todos falavam ao mesmo tempo.

O sol nasceu sem o galo… O sol nasceu sem o galo…

O pobre do galo não podia acreditar naquilo que seus olhos viam: a enorme bola vermelha, lá no alto da montanha. Como era possível? 
Teve um ataque de depressão ao descobrir que o seu canto não era tão poderoso como sempre pensara. 
E a vergonha era muita.

Os bichos, por seu lado, ficaram felicíssimos. 
Descobriram que não precisavam do galo para que o sol nascesse. 
O sol nascia de qualquer forma, com o galo ou sem o galo.

Passou-se muito tempo sem que se ouvisse o cantar do galo, pois estava deprimido e humilhado. 
O que era uma pena: porque é tão bonito. 
Canto de galo e sol nascente combinam tanto. 
Parece que nasceram um para o outro.

Até que, numa bela manhã, o galinheiro foi despertado de novo com o canto do galo. 
Lá estava ele, como sempre, no alto do telhado, peito estufado.

Está cantando para fazer o sol nascer? – perguntou o peru em meio a uma gargalhada.

Não, – respondeu o galo. Antes, quando eu cantava para fazer o sol  nascer, eu era doido varrido. Mas agora eu canto porque o sol vai nascer. O canto é o mesmo. E eu virei poeta… 

Adaptação da fábula contada por Rubem Alves

Enviado para o meu correio eletrônico pelo grupo Amigos de Deus.





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Luíza Gomes